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Quando o imaginário caiu de moto



A mágica do cinema é dar glamour ao corriqueiro e até ao feio. É tudo tão bem feito, que a gente confunde o mundo com a tela. Só fica chato quando as experiências da vida real suplantam o belo imaginário criado.

O sonho de Carlinhos é ter uma moto e viajar com ela. Não é qualquer moto, nem qualquer viagem. Carlinhos tem um bom coração, mas quer ser um bad boy numa motocicleta, igual aos bonitões dos filmes.

Carlinhos quer vestir a jaqueta de couro do James Dean, colocar óculos escuros Ray-Ban e pilotar uma Harley Davidson, melhor com uma loira linda na garupa.

O típico bad boy que vive intensamente, é livre, não segue regras. O rebelde sem causa. O selvagem que, por onde passa, impõe medo.

Carlinhos só se esqueceu de que, em Belo Horizonte, o bad boy sobre duas rodas é diferente, bem menos vistoso, bem mais odiado.

Em vez de moto custom com o guidão lá no alto, são outras, prontas pra ruas esburacadas: Fan, Titan, Fazer, Lander, XRE, Falcon...

Os bad boys daqui pilotam motos “tumulto”, aquelas sem documentação e cheias de multas. Outras são de roubo, com placa clonada.

Sem óculos, capacete frouxo, cheio de adesivos. De chinelo, de tênis, sem camisa, de moletom: a moda não importa quando o objetivo é barbarizar.

A alma não se eleva, mas a viseira e a roda da frente estão sempre no alto.

Se andam com garupa, pior ainda. As pernas do pedestre tremem. O assalto é iminente. A fuga é rápida.

Eles não têm o estilo, mas têm o espírito ruim, de um modo nada cinematográfico. Na grande BH, o bad boy de moto não é nada glamouroso.

Carlinhos editou o sonho: só quer uma moto legal para ir ao trabalho e passear nos finais de semana, sem assustar ninguém, sem ser mal visto.

Talvez consiga.

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